Saúde nos países “intervencionados”: gregos, irlandeses e portugueses

Há importantes diferenças na situação financeira, socioeconómica e de saúde entre a Grécia, a Irlanda e Portugal. Apesar dessas diferenças estes três países da EU e da zona Euro foram forçados, no espaço de cerca de uma ano, a solicitarem um “resgate” financeiro à Comissão Europeia, ao Banco Central Europeu e ao Fundo Monetário Internacional (vulgo, a toika), na sequencia de uma financeira e económica desencadeada em 2008 por graves perturbações do sistema financeiro internacional. 

Para que os empréstimos fossem concedidos, estes países tiveram que chegar a um “memorando de entendimento” com a troika. Este documento, que explicita as “condições para emprestar”, contém um amplo conjunto de medidas, relativas a praticamente todos os sectores de actividade dos países subscritores, com um calendário explícito, e relativamente apertado, para a sua implementação.

Este tipo de intervenção, empréstimo das instituições Europeias e do FMI, com juros (elevados) por eles estabelecidos, acompanhado por orientações explícitas nas mais diversas políticas sectoriais dos países intervencionados, constitui um fenómeno novo para a Europa do Século XXI. Por isso, e pelas suas implicações, actuais e futuras, para estes países e para o conjunto a Europa, esta situação deve ser detidamente acompanhada e analisada.

(Para mais detalhes ver o número 5 da Revista Saúde & Sociedade – Julho de 2011)

Na sequência da presença em Lisboa (Junho de 2011) de académicos da Irlanda, da Grécia e do Observatório Europeu de Sistemas e políticas de saúde, o INODES propôs início de um estudo comparativo prospectivo sobre a evolução dos sistemas de saúde da Irlanda, Grécia e Portugal, durante os próximos três anos. A proposta foi aceite e o estudo irá iniciar-se já em Julho do corrente ano (2011).


Philipa Mladovsky

Philipa MladovskyPhilipa MladovskyAntropóloga e investigadora no Observatório Europeu de Sistemas e Políticas de Saúde e na London School of Economics, é uma das coordenadoras do estudo europeu, em curso, designado "The impact of financial crisis on health systems: Review of past eand current experience". Em Lisboa, apresentou algumas observações preliminares extraídas deste estudo. Em resposta à crise financeira, alguns países europeus comprometeram-se com novas e significativas intervenções nos seus sistemas de saúde (República Checa, Irlanda, Grécia e Portugal), enquanto que noutros não é possível observar qualquer resposta significativa (Chipre, Dinamarca, Finlândia, Alemanha, Malta, Polónia e Eslováquia). Há no entanto um número significativo de países que iniciaram reformas significativas, mas que recuaram face à sua grande impopularidade (Bulgária, Hungria, Roménia, República Checa e Reino Unido).

Steve Thomas

Steve ThomasSteve ThomasEconomista, investiga e ensina economia e políticas de saúde no Trinity College, em Dublin. A crise na Irlanda pode servir para: melhorar a eficiência do sistema de saúde a vários níveis; diminuir substancialmente as resistências à mudança no país; alavancar efectivamente a criação de um seguro universal de saúde. Mas também pode resultar: em expectativas irrealistas quanto à capacidade de atingir rapidamente níveis elevados de eficiência; na degradação dos serviços de saúde; em matar as reformas. O equilíbrio entre estes dois cenários é muito delicado. Os irlandeses estão zangados, especialmente com o sistema bancário e com aqueles que, dentro e fora da Irlanda, contribuíram para o seu desmoronamento, cuja sobrevivência está a ser custeada por todos os irlandeses. Muitos autocarros em Dublin passaram a circular vazios, as pessoas deixaram de via à baixa fazer compras.

Babis Economou

Babis EconomouBabis EconomouSociólogo, ensina e investiga em sistemas e políticas de saúde na Universidade Panteion de Atenas. O sistema de saúde da Grécia tem grandes deficiências que se arrastam durante décadas, com pequenos e insuficientes processos incrementais. Esta situação antecede em muito a presente crise. A crise pode ser uma oportunidade única para uma reforma estrutural profunda do sistema de saúde grego. No entretanto o clima social tem-se deteriorado muito ultimamente, e nestas circunstâncias as responsabilidades colectivas por esta situação esbatem-se, instalando-se uma grande polarização social que pode paralisar o país. Aqui também o caminho de um processo efectivo num prazo razoável é muito estreito, e não é seguro que existam condições para o percorrer. Entretanto os mais jovens oscilam entre a indignação e o abandono do país.